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Minha experiência com os sem-terra

Olá leitor(a), tudo bem?

Hoje o Movimento dos Sem-Terras é visto com maus olhos pela sociedade por causa das irregularidades, invasões e terrorismo que eles vem praticando pelas fazendas pelo nosso Brasil. E isso realmente é repudiante e inaceitável.

Mas em 2007 eu não tinha uma visão política crítica como eu tenho hoje em dia. Pra mim, ter uma terra era direito de todos que queriam trabalhar, independente da forma de consegui-la, os latifundiários não precisavam de tantas terras assim e as medidas tomadas pelos posseiros para adentrar às terras protegidas por jagunços eram até legais ao meu ver.

Hoje eu penso totalmente diferente porque conheci os dois lados da moeda e você vai entender o porque. Por favor, leia até o final, talkei?

Em meados de 2007, meu padrasto e minha mãe decidiram se mudar de Ouro Preto do Oeste - RO para uma pequena cidade-distrito, chamada Nova União, no estado do Mato Grosso. Eu cursava a oitava série e fomos com o objetivo de ganhar um lote em uma partição de terras de uma fazenda naquela localidade.

A pessoa que tinha mais conhecimento sobre o lugar que iríamos morar e as terras que estavam sendo divididas era o meu padrasto. Minha mãe, minhas irmãs - que na época tinham 4 e 3 anos - e eu não tínhamos ideia de como era aquele lugar. Mas fomos.

Meu padrasto foi junto com a mudança. O motorista que levou nossa mudança era amigo da família, conhecido como 'neném sem camisa'. Minha mãe, minhas irmãs e eu fomos de ônibus em uma viagem de pouco mais de vinte e quatro horas, devido a situação das estradas.

Adiantando um pouco a história, pois não quero contar toda a minha história e vivência naquela localidade.

Após alguns meses morando na ali, alguns amigos e eu fomos trabalhar, dentro desta área invadida, roçando o lote da madrasta de um deles. E como essa área era bem afastada da cidade, decidimos ficar morando lá dentro do assentamento mesmo para evitar gastos diários de passagens.

Ali vivi várias experiências bacanas da minha vida, aprendi muitas coisas, conheci muitas histórias e as pessoas dessas histórias. Dentro daquele grupo também tinha um irmão da minha mãe que buscava por um pedaço de terra. Então, em pouco tempo, eu já me sentia em casa.

Trabalhávamos, todos os dias de manhã, roçando aquele lote, brigando com marimbondos, se cuidando para não sermos picados por cobras, e sempre atentos à chegada da polícia para retirar as pessoas dali, caso não houvesse negociação com o fazendeiro.

Tomando gosto pelo trabalho e por aquele lugar, eu conversei com um dos responsáveis e demarquei um pedaço que seria meu caso conseguíssemos as terras. Nesse dia eu tive a oportunidade de ver uma das mais belas e perigosas imagens da minha vida. Um bando de porcos selvagens, os queixadas, estavam ali perto e, como numa aventura incrível, fomos cercados por eles. O meu guia logo me disse para não descer de maneira nenhuma, pois eles eram dos chamados "faixa preta" e, dizendo ele, seriam os mais ferozes.

Ali naquele lugar víamos pessoas que, realmente, gostariam de ter seu pedaço de terra, pessoas que, por serem pobres, não tinham condições de comprar um sítio para trabalhar e decidiram entrar para aquele movimento defendido por Lula e o PT, onde prometiam dar terras para todos que queriam viver do campo. Mas também tinham aqueles que não queriam uma parte da terra para morar, trabalhar e formar sua família e sua vida, mas sim para vender a madeira, lucrar com o dinheiro e logo depois vender a terra também.

E esse pensamento de vários interesseiros que atrapalhou todo o andamento da negociação com o fazendeiro, que estava quase cedendo parte daquela terra para a divisão entre os ocupantes. Segundo informações que chegaram até mim naquela época, o fazendeiro disse aos organizadores do movimento que daria parte da terra aos sem-terras, mas que eles esperassem um pouco para que ele retirasse a madeira e vendesse; assim os ocupantes poderiam ficar com a terra e trabalhar em cima dela.

Mas a ganância foi maior que a paciência. Muitos disseram 'não' a esse acordo. Disseram que queriam as terras e tudo que tivesse sobre ela. Visto que não teria acordo por causa de uma parte dos grileiros, o fazendeiro cancelou a negociação e acionou a polícia para que retirassem os invasores de suas terras. E assim findou-se o sonho de muitos por ali.

Meus amigos e eu ficamos pouco mais de dois meses trabalhando no grilo e só não fomos presos junto com todos que estavam lá porque dias antes tínhamos ido para a cidade comprar mais comida para levarmos para o grilo. Isso que nos livrou da prisão.

Porém meu padrasto, que tinham um caminhão Mercedes 608 azul para trabalhar com fretes, tinha alugado o mesmo para um senhor fazer uns fretes para o grilo no mesmo dia da chegada da polícia. E acabou que o caminhão foi apreendido junto com todas as pessoas da invasão, juntamente com seus pertences.

Hoje, com uma visão política mais lapidada, tenho meu ponto de vista sobre o movimento sem-terra. Consigo ter uma visão mais crítica da situação e de tudo que vi lá dentro. E hoje, com essa visão, eu pude notar uma coisa nos sem-terras.

O que encontrei foram famílias humildes e de bom coração que se aliaram a um movimento terrorista buscando terras para poderem trabalhar, enquanto os verdadeiros cabeças do negócio buscavam apenas a riqueza que estava na terra para retirar lucros e, no mais tardar, vender a propriedade.

Sou a favor da divisão de terras para famílias carentes que queiram trabalhar na terra, desde que não seja tomada a força, mas seja através de negociação do INCRA em acordo com o fazendeiro. Porque realmente há quem queira trabalhar no meio desse movimento, mas como diz o ditado: "Os bons pagam pelos erros dos maus". E o MST é um belo exemplo disso, pois os gananciosos tiram a oportunidade do trabalhar humilde e honesto ter seu pedacinho de chão.
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